Apartamento 201.
Querido vizinho, espero e tenho fé de que lerá esta carta, pois por mais que tentei não funcionou.
Tentei lhe avisar, evitar ou lhe entregar pessoalmente, porém minhas costas doem e só de te ver já me dera calafrios. Por isso imóvel fiquei aquele dia.
O Sol já raiou e lá estava você de novo, sorridente, música clássica ao fundo, perto do velho forno ardente. Confesso ter ficado olhando, contente, imaginando como seria dividir o aluguel do apartamento 201.
Perplexa, observando o movimento pelos vidros da sacada, me aqueço com minha rustica xícara de café. Hoje não teremos pães, somente o cheiro que vinha da sua janela.
Isso me lembra quando éramos crianças e esperávamos o almoço ficar pronto, mas dessa vez não teremos reuniões familiares.
Quando mamãe falava que um dia seguiríamos em frente, não achei que seria tão cedo, tão breve.
Neste exato momento, com minha xícara em mãos, reflito sobre os velhos tempos. Por que somos assim? Mesmo os que não irão voltar, os relembramos. É como se nossas mentes permanecessem intactas para essas situações de nostalgia. Como se sentíssemos a necessidade de relembrar, como se só nos achássemos suficientes com isso, e é assim que nos mantemos de mente inteira e vazia ao mesmo tempo.
Uma contradição de sentimentos me invade e me desligo do mundo. Apesar de você estar no 201, sinto a sensação de como se estivesse aqui. Ou talvez seja só mais uma ilusão que uso para manter-me acordada.
Mais uma vez, não vejo a hora de me livrar de você, mas ao mesmo tempo de ter-te em meus braços, no antigo apartamento 201.
Ass: APT 200
Eduarda Maciel.